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3 formas de seu dinheiro sumir no mercado financeiro

Lições de uma das maiores fraudes financeiras para o investidor brasileiro

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Teva Indices
Teva Indices

A Teva Indices é pioneira em ciência financeira no Brasil, indexando mercados, insights e estudos para a criação dos ETFs mais eficientes do mercado brasileiro. A Teva Indices cria metodologias confiáveis, replicáveis e transparentes, cobrindo todas as classes de ativos.

O caso do Banco Master surpreende de várias formas, espanta pelo tamanho e se torna um novo marco no mercado brasileiro. Entretanto, no mundo dos investimentos, a maior indignação é pela falta de sofisticação no modelo de fraude.

A infraestrutura de mercado é complexa e feita para evitar que seu dinheiro suma. Aqui, vamos explorar o que foi noticiado sobre o Banco Master para explicar algumas das engrenagens do sistema financeiro que muitas vezes passam desapercebidas na tomada de decisão de investimentos e vamos aproveitar para ilustrar como o investimento indexado te protege em cada um desses casos.

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CDB – UM DINHEIRO SEM CARIMBO

Você comprou um CDB do Banco Master. O que isso significa?

Na prática você está emprestando seu dinheiro para o banco. Porém, diferentemente de uma LCA por exemplo, que deve ser aplicado em um setor específico, o CDB é um recurso livre. Isso significa que o banco pode emprestar seu dinheiro para outra pessoa ou empresa, investir em títulos públicos ou privados e cobrir suas próprias despesas.

No mundo financeiro, quanto mais desvinculado de obrigações é o investimento, mais confiança o investidor precisa depositar em quem está recebendo seus recursos. Na realidade, é muito raro que o dinheiro venha livre de contrapartidas. Empréstimos requerem garantias, investimentos em ações vêm com direitos societários e fundos de investimento são restritos por suas políticas de investimento.

No caso do Banco Master, um dinheiro livre é a forma ideal de iniciar uma desvirtuação da aplicação dos recursos dos investidores

A captação que prometia retornos acima do mercado, era aplicada em empresas privadas (private equity), ou em dívidas para essas empresas, que em geral são investimentos de baixa liquidez. No caso do Banco Master, muitas vezes em empresas de situações especiais (ou seja, investimentos de altíssimo risco, liquidez ainda menor e de difícil apuração de seu valor justo).

O primeiro problema aqui é um descasamento entre a liquidez de ativos (investimentos do banco) e passivos (o dinheiro do investidor). Em um momento que o banco precisa repagar seus CDBs, se não conseguir reaver o dinheiro dos investimentos, ele está em crise de solvência.

O segundo problema é que, uma vez que esse dinheiro entra nas outras empresas, ele também pode ser repassado a diante para empresas sem amarras (garantias ou deveres). Quando esse funcionamento do mercado opera dentro de um guarda-chuva de fraude, ele pode cair em uma empresa fantasma (sem operações, com laranjas como responsáveis) e assim ele pode sumir.

Então qualquer banco pode sumir com meu dinheiro?

Não. Uma operação fraudulenta é crime e as regulações de mercado de capitais, em geral, se são permissivas de um lado, são restritivas de outro. Apesar dos recursos de CDBs não terem um carimbo de utilização, a estrutura de instituição financeira é restrita de outras formas como requerimentos de capital, alavancagem, testes de liquidez, políticas de compliance (know your client), prevenção de lavagem de dinheiro, financiamento a terrorismo etc.

Isso se resume na máxima de mercado sobre regulações: “Pode, mas não dá. Dá, más não pode”. O Banco Master explorou a segunda parte, “dava” para investir do jeito que fez, mas por outro lado não poderia.

O extremo oposto no mundo dos investimentos - a transparência dos indexados

O risco de se investir em algo que não se sabe o que é, ou para onde o dinheiro vai, é o extremo oposto do mundo dos investimentos indexados. Um fundo que segue um índice é obrigado a replicá-lo. E o índice é obrigado a disponibilizar sua metodologia e carteira de ativos de forma pública. No caso dos ETFs, qualquer desvio dessa rota é medido diariamente, pois a carteira dos fundos também é aberta e divulgada diariamente. Mas fica um ponto de atenção, é por isso que o índice precisa ser calculado de forma independente e precisa para assegurar aos investidores que seus recursos estão sendo aplicados de forma correta. Um índice preciso, com governança e segurança de precificação é o ápice da transparência nos mercados.

PRECIFICAÇÃO DE ATIVOS E A FUNÇÃO DO ADMINSITRADOR

Vale quanto pesa

Nas notícias recentes, um outro nome começa a aparecer vinculado às operações do Banco Master: a Reag Investimentos.

Na figura de administradora, a Reag têm atribuições cíveis: ela é representante legal do fundo e responde por culpa ou dolo na gestão dos recursos, deve atuar no interesse exclusivo dos cotistas, tem responsabilidade por atos ilícitos e danos causados por negligência.

Pelas comunicações na mídia, uma parte dos recursos captados pelo Banco Master fluiu por diversos fundos de investimentos, de “mão em mão”, até que em um momento, um desses fundos investiu esses recursos em papéis de valor duvidoso. Em seguida, esses papéis foram revalorizados (sendo que a apuração de precificação de um fundo é atribuição do administrador). De repente, um dinheiro líquido que valia, por exemplo, R$ 1.000, passou a ser contabilizado como R$ 1.000.000.

Simples assim? É possível criar dinheiro do nada? Não. Mas novamente, é algo que se encaixa no “dá, mas não pode”.

Se uma pessoa compra uma moeda antiga por R$ 100 e revende no dia seguinte por R$ 1.000, qual o valor dessa moeda? Em geral, se há mercado e preço para essa moeda por R$ 1.000, pode-se afirmar que a compra por R$ 100 foi um bom negócio. O que não significa que se você pagar o mesmo valor por uma moeda e em seguida escrever em sua planilha de investimentos que ela vale R$ 1.000.000, que você está rico.

Mesmo que haja uma transação em um preço fora da realidade, não significa que o administrador do fundo tem somente que “escriturar” isso nas demonstrações do fundo. É papel dele questionar a precificação desses ativos.

O extremo oposto no mundo dos investimentos - precificação do índice e segurança dos retornos

O índice é como um gabarito para o investidor. Ele garante que os retornos do fundo estão de acordo com o que deveriam ser.

A cotização de um fundo (valor de cada cota de cada investidor) é apurada pelo administrador de forma “ex-post”, ou seja, no final do dia, o administrador olha para a carteira do fundo, precifica cada um dos ativos, apura as despesas, calcula o valor total do fundo e divide pelo número de cotas. A variação do patrimônio do fundo é no final do dia o retorno do investidor.

Mas o que garante que este valor está correto, além das obrigações cíveis do administrador? Em geral, nos investimentos discricionários da gestão ativa, não muito, além da auditoria anual.

Além disso, recentemente os gestores ativos lutaram para criar mais opacidade em relação às carteiras, que antes eram divulgadas trimestralmente, hoje são divulgadas semestralmente e ainda estão tentando reduzir ainda mais a transparência para intervalos maiores que esses. Quem perde é o investidor, que acaba caindo no ponto parecido com os CDBs do Master, sem saber precisamente onde seu dinheiro está sendo investido e com poucos instrumentos para verificação (nesse contexto, há muitos casos de desvios da política de investimento, mas esse é assunto para outro texto).

Por outro lado, um investimento indexado, tem diariamente, a referência de retorno calculada por uma fonte externa. A precificação dos índices é um pilar fundamental e garante que o retorno da cota calculada pelo administrador está em linha com seu retorno teórico. Isso evita, por exemplo, que o gestor gaste demais com custos (advogados, corretagem, prestadores de serviço externos), evita que fraudes de precificação se perpetuem e evita também que o gestor invista em ativos que não estão em linha com a política de investimento.

LIQUIDEZ DOS RESGATES

Último a sair apaga as luzes

Mas reprecificar um ativo em um valor errado significa necessariamente que o investidor perdeu dinheiro? Não. O investidor somente será lesado, se a precificação gerou vantagem econômica para alguém.

Vamos usar um exemplo. Você é o único investidor de um fundo da Reag, com R$ 100 aplicados. No dia seguinte, o Banco Master aporta também R$ 100 no fundo, de modo que agora o fundo tem R$ 200. Agora, vamos dizer que no dia seguinte o fundo compra uma moeda por um centavo, e em seguida, o administrador precifica essa moeda em R$ 2.000. Agora o fundo tem patrimônio aproximado de R$ 2.200, dois mil da moeda e duzentos de cada um dos investidores.

Na teoria, arredondando você teria direito à R$ 1.100 e o Banco Master aos outros R$ 1.100. Até aí, tudo bem. Ninguém foi lesado.

Agora imagine que o Banco Master resgata R$ 200 do fundo. Você continua cotista do fundo com direito a R$1.100, o Banco com direito a 900. No dia seguinte você tenta resgatar seu dinheiro e descobre que o fundo só tem uma moeda que na verdade vale 1 centavo. E é assim uma segunda forma de seu dinheiro sumir.

No contexto de fundos de investimento ativos

A teoria dos investimentos nos mostra que mexer pouco na carteira e utilizar alocação como principal forma de obter retornos é uma fórmula vencedora. Mas então, por que investidores experientes resgatam rapidamente em sinais de crise?

Em fundos de investimentos ativos, muitas vezes o jargão de “o último a sair apaga a luz” é verdadeiro. E a razão é parecida com o que descrevemos acima, vale tanto para fundos de ações quanto de renda fixa.

Quando um gestor recebe uma quantidade grande de resgates, é comum que ele se desfaça primeiro das participações mais líquidas. Ativos líquidos são aqueles que têm muitos compradores e vendedores, um mercado aquecido. Isso significa que é possível vender uma quantidade maior de ativos sem afetar seu preço. O gestor tem incentivos para fazer isso, pois dessa forma as vendas impactam menos o valor de suas cotas.

Resultado disso é que os ativos que ficam em carteira acabam sendo menos líquidos e, se há mais resgates e o gestor precisa fazer liquidez, ao vende-los, pode impactar seu preço em mercado, perdendo valor no fundo. Nesse cenário, os últimos investidores a resgatar podem arcar com as maiores perdas.

Resgates dos ETFs

No caso dos ETFs indexados, esse incentivo não existe para o gestor, pois ele deve seguir o índice. Se o mercado se mexe para cima ou para baixo, se ele tem resgates ou não, o gestor idealmente se desfaz dos ativos nas mesmas proporções. Isso protege os investidores que não querem resgatar de sobrarem com apenas os ativos menos líquidos no fundo.

CONCENTRAÇÃO DOS INVESTIMENTOS

Operar o FGC pode ser uma estratégia de investimento arriscada

Muitos investidores foram atraídos pela ideia de garantia do valor investido pelo FGC, uma instituição de propósito relevante e boas intenções que acabou servindo de plataforma de marketing para uma das maiores fraudes da história.

A alocação calculada por limite de indenização pode desequilibrar uma equação de risco retorno e incentivar a alocação com uma concentração em risco muito superior ao ideal em uma carteira de investimentos. Talvez, sem a garantia contra perda, os retornos esperados pelos investidores inviabilizassem a captação do Banco Master e encurtasse o tempo que a fraude decorreu.

Ainda assim, há muitas entidades que não são cobertas por essa garantia e que, em uma liquidação, provavelmente não vão reaver investimentos realizados. Uma falência, no caso dos bancos, liquidação, é uma terceira forma de seu dinheiro evaporar como investimento.

Nesses momentos, é importante lembrar que uma perda do total investido em algum instrumento pode significar um impacto enorme caso não haja diversificação na carteira. Novamente, bons índices, especialmente de renda fixa, são pensados para evitar essa exposição, de diferentes formas, seja pela seleção dos ativos, ou pela exposição máxima dos emissores.

É uma pena que histórias como essa do Banco Master e Reag marquem um mercado que está ainda em desenvolvimento. O brasileiro merece ter acesso a bons investimentos, com custos baixos, boa execução e retornos. A educação financeira também acontece via esses episódios. A Teva Indices trabalha para a criação das bases de evolução e maturidade do mercado de investimentos brasileiro construindo índices precisos, confiáveis e transparentes.

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